Épica Cristã em Dez Cantos
O Conto
Camões em forma · Escritura em substância · Tolkien em espírito
Não parto da manhã primeira e bela,
Nem do jardim em sua paz vestida;
Parto do instante em que baixou à cela
Do mundo a prometida e nova Vida.
Geme Adão, e a culpa lhe desvela
Os horizontes da mortal ferida;
Mas entra em casa pobre a graça pura,
E o Céu se inclina à nossa desventura.
Tolkien escreveu que os Evangelhos contêm um conto de fadas — ou antes, uma história de espécie maior que abraça toda a essência dos contos de fadas — e que nela se encontra a maior e mais completa eucatástrofe concebível: aquela reviravolta súbita e jubilosa que nenhum autor humano ousaria inventar, porque é demasiado boa e demasiado concreta. A diferença decisiva é que esta história entrou na História. O desejo da subcriação foi elevado ao cumprimento da Criação.
Este poema canta essa história. A sua matéria é a Escritura na versão latina que São Jerónimo fixou na Vulgata Clementina — o texto que durante mil anos formou a imaginação do Ocidente cristão e que Dante, Camões e Vieira tinham memorizado. A sua forma é a oitava-rima camoniana: a mesma estrofe em que Camões cantou os feitos portugueses porque entendia, como Virgílio antes dele, que só a forma alta é digna da matéria alta. A sua atmosfera é a que Tolkien chamou recuperação — ver as coisas como são, ou como fomos feitos para as ver, livres da opacidade da familiaridade.
Camões abriu os Lusíadas declarando que cantava "as armas e os barões assinalados" porque o feito de um povo merecia canto. Aqui canta-se o feito de Deus — não como alegoria, não como mito, mas como história verdadeira em que o Autor entrou como personagem. Não há na literatura outra história assim. Não há conto em que a eucatástrofe seja tão real, tão gratuita, tão custosa.
Fontes
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Vulgata Clementina
A tradução latina das Escrituras que São Jerónimo completou no século IV e que o Concílio de Trento confirmou como texto oficial da Igreja. É a língua em que Agostinho pensou, em que Tomás argumentou, em que Camões e Vieira pregaram e rezaram. A matéria deste poema é retirada dela.
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Os Lusíadas — Luís de Camões
O maior poema épico da língua portuguesa, publicado em 1572. Camões usou a oitava-rima virgiliana para cantar os navegadores portugueses porque entendia que a forma é inseparável da dignidade da matéria. É o modelo formal deste poema: a estrofe, a cadência, o registo elevado, a proporção entre episódio e canto.
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On Fairy-Stories — J. R. R. Tolkien
O ensaio que Tolkien apresentou em St. Andrews em 1938. Nele argumenta que os contos de fadas oferecem recuperação — ver as coisas como são, livres da opacidade da familiaridade —, escape do mundo desencantado, e consolação pela eucatástrofe: a reviravolta súbita e jubilosa que é o sinal da história verdadeira. O Nascimento de Cristo, escreve Tolkien, é a eucatástrofe da história do homem. A Ressurreição é a eucatástrofe da história da Encarnação. Lenda e História encontraram-se e fundiram-se.