Épica Cristã em Dez Cantos

O Conto

Camões em forma · Escritura em substância · Tolkien em espírito

Não parto da manhã primeira e bela,
Nem do jardim em sua paz vestida;
Parto do instante em que baixou à cela
Do mundo a prometida e nova Vida.
Geme Adão, e a culpa lhe desvela
Os horizontes da mortal ferida;
Mas entra em casa pobre a graça pura,
E o Céu se inclina à nossa desventura.

— Canto I, estrofe 3

Tolkien escreveu que os Evangelhos contêm um conto de fadas — ou antes, uma história de espécie maior que abraça toda a essência dos contos de fadas — e que nela se encontra a maior e mais completa eucatástrofe concebível: aquela reviravolta súbita e jubilosa que nenhum autor humano ousaria inventar, porque é demasiado boa e demasiado concreta. A diferença decisiva é que esta história entrou na História. O desejo da subcriação foi elevado ao cumprimento da Criação.

Este poema canta essa história. A sua matéria é a Escritura na versão latina que São Jerónimo fixou na Vulgata Clementina — o texto que durante mil anos formou a imaginação do Ocidente cristão e que Dante, Camões e Vieira tinham memorizado. A sua forma é a oitava-rima camoniana: a mesma estrofe em que Camões cantou os feitos portugueses porque entendia, como Virgílio antes dele, que só a forma alta é digna da matéria alta. A sua atmosfera é a que Tolkien chamou recuperação — ver as coisas como são, ou como fomos feitos para as ver, livres da opacidade da familiaridade.

Camões abriu os Lusíadas declarando que cantava "as armas e os barões assinalados" porque o feito de um povo merecia canto. Aqui canta-se o feito de Deus — não como alegoria, não como mito, mas como história verdadeira em que o Autor entrou como personagem. Não há na literatura outra história assim. Não há conto em que a eucatástrofe seja tão real, tão gratuita, tão custosa.

Fontes